A identificação das xilogravuras com a cultura nordestina é tão marcante que causa surpresa em muitos ao descobrirem que sua origem não é brasileira, mas sim do outro lado do mundo, na China, onde se tornaram conhecidas pelo menos desde o século VI.
Os chineses são os responsáveis por invenções grandiosas que revolucionaram a história da humanidade, como a bússola, a pólvora, a impressão e o papel. Os livros e sua imensa capacidade de transmissão de conhecimento não existiriam sem o papel, assim como as cartas, os jornais, as revistas e uma variedade de itens que podem ser impressos, desenhados ou escritos.
Antes da invenção do papel, os registros eram feitos em outros materiais, geralmente mais difíceis de manusear, caros e, de certa forma, complexos de produzir, a exemplo dos pergaminhos feitos à base de pele de animais e os papiros do Egito, elaborados a partir da haste de uma planta homônima.
O papel viabilizou o desenvolvimento de diferentes ramos da arte, incluindo as xilogravuras, que inicialmente foram utilizadas para ilustrar textos budistas. A técnica de entalhe em madeira para impressão chegou à Europa, especialmente na Itália e Alemanha, durante o período medieval, como resultado das rotas comerciais estabelecidas entre o Ocidente e o Oriente. As xilogravuras continuaram a ser utilizadas em ilustrações religiosas, dessa vez aplicadas a temas cristãos, e foram essenciais para a construção de livros esculpidos em pranchas de madeira, muito comuns antes do surgimento da prensa tipográfica. O surgimento da tipografia não tornou as xilogravuras obsoletas; ao contrário, ambas se integraram perfeitamente, promovendo a maior circulação de conhecimentos, de imagens religiosas e o aprimoramento da técnica.
No Brasil, é na cultura popular nordestina que as xilogravuras alcançam um lugar de destaque, dando forma visual aos livros de cordel, um gênero literário bastante popular no Nordeste. A escolha da xilogravura se justifica por questões estéticas e materiais, uma vez que a madeira era mais acessível e barata, permitindo a produção de tiragens rápidas e um efeito visual que se harmonizava com o estilo narrativo característico do cordel.
As xilogravuras passaram a integrar o imaginário coletivo nordestino, auxiliando na criação da imagética de personagens importantes para a cultura regional, de heróis, de mitos e de figuras políticas. Grandes nomes dessa arte, como J. Borges e Amaro Francisco, entre outros, devem ser considerados como construtores de narrativas, visto que as imagens criadas por eles possuem uma força simbólica que muitas vezes ganha vida para além do texto escrito, constituindo um campo próprio.
É importante lembrar que a xilogravura também se apresenta como uma arte independente, com muitos xilógrafos produzindo trabalhos estéticos fora do universo do cordel. Nomes como Gilvan Samico, J. Borges, Mestre Noza, José Altino e Josafá de Orós são alguns representantes dessa tradição.
Nos últimos tempos, tenho observado com curiosidade a obra de Josafá de Orós, artista cearense radicado na Paraíba, que possui uma linguagem peculiar. Sua plasticidade quase teatral alia a intensidade do simbolismo tradicional da cultura nordestina ao realismo da vida social contemporânea, e entre os variados temas de suas xilogravuras, aprecio especialmente aquelas que abordam atividades de trabalho pouco valorizadas, como o corte de cana e a colheita de algodão.
Josafá de Orós criou uma série de xilogravuras belíssimas sobre a feira de Campina Grande, revelando, com um olhar apurado que se debruça sobre as sociabilidades, traços do cotidiano, da vida e da cultura. O artista atua como um antropólogo que escreve sua etnografia não com palavras, mas a partir de fragmentos de imagens que são lapidados na madeira, impressos no papel e retirados do campo da efemeridade através do poder universalizante da arte.
Em Josafá, forma e história se misturam, assim como a política, a tradição e o imaginário cultural, o que não costuma acontecer como mera reprodução da tradição. O artista expõe as vísceras do mundo numa recusa franca e aberta que, muitas vezes, aponta para a impossibilidade de harmonia em relação à realidade, numa obra que se realiza através do estranhamento, não aquele que nos faz viver a lógica dos nativos – como pensam alguns antropólogos -, mas que é capaz de desordenar, por um momento, a lógica dominante.
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Fonte: www.maispb.com.br | Publicado em 2025-11-19 16:59:00
