Refletir de forma aleatória sobre diversos temas, sem se amparar rigidamente em uma metodologia ou em uma teoria específica, é uma característica dos gêneros que denomino como heterodoxos. Diários, confissões, testemunhos, impressões, registros e outras formas de escrita podem ampliar o espectro das possibilidades semânticas, permitindo que o autor ou a autora explorem seus pensamentos de maneira livre.
Sou um entusiasta desse gênero, com uma longa e consolidada tradição, especialmente quando ele incorpora, de um lado, a profundidade do pensamento, em sua natureza crítica e provocativa em relação ao conteúdo abordado, e, de outro, a singularidade estilística que transforma a palavra em um corpo vivo e numa experiência estética.
É com essas considerações que analiso a obra de Antônia Claudino, intitulada Eu sou Antônia: pulsações (João Pessoa: Editora Martinho Sampaio, 2025), já reconhecida como o primeiro volume, o que sugere a possibilidade de outros seguirem.
A autora denomina seus pensamentos de “pulsações”, que me parece um indicador fundamental de sua escrita ocasional. “A complexidade das coisas”, “O fardo das lembranças”, “O perdão”, “Entre realidade e fantasia”, “A sabedoria do silêncio”, “O coração do poeta”, “A balança cósmica da justiça”, “A magia da conexão”, “A força de ser mulher” e “A religião dos homens” são alguns dos tópicos que revelam sua inquietação reflexiva.
Valorizo, em especial, os momentos em que a enunciação se torna mais incisiva, rompendo, assim, com a percepção convencional e ampliando, a seu modo, a compreensão de maneira mais sutil e criativa. Em “A sabedoria do silêncio”, por exemplo, essa nuance se destaca quando Antônia Claudino afirma:
“A maturidade é a arte de escolher as batalhas. É sentir o peso das palavras não ditas, a urgência de expressar mil pensamentos, e, mesmo assim, optar pela quietude. Não é ignorância, não é fraqueza. É reconhecer a força contida no silêncio, a elegância de saber que nem tudo precisa ser dito. Às vezes, a palavra mais poderosa é a que não escapa à boca”.
O mesmo se aplica quando ela recorda, em “O coração do poeta”, que a poesia é: “uma ponte entre seres humanos, um convite ao diálogo silencioso entre as verdades mais profundas”.
Esse me parece o tom a ser mais trabalhado. Principalmente numa perspectiva que evite os clichês epistêmicos e que faça emergir, da essência das coisas e da corrente dos fatos, a verdade negativa, o avesso revelador. Para isso, os motivos devem se alinhar não apenas ao crivo crítico do pensamento, mas, e, acima de tudo, ao tratamento mais rigoroso da palavra, em sua densidade material e artística. Diria até que esse gênero, o heterodoxo, ao entrelaçar realidade e imaginação, poesia e referencialidade, exige um árduo exercício formal na elaboração de sua expressão.
Curiosamente, o melhor texto se encontra fora do corpo editável do livro. Refiro-me a “Um batom e seus significados”. Aqui, mais do que em qualquer outro fragmento das 150 páginas, a autora se revela por inteiro, insinuante na construção das frases, imersa em subterfúgios mentais e no mais rico campo da libido vocabular. Cito trechos do texto como prova:
“O vermelho não se esconde. Ele não pede licença. Um batom vermelho é mais do que a cor: é atitude. É manifesto. É coragem líquida pronta para atravessar o mundo {…} o vermelho não se limita aos lábios. Percorre a pele, o espírito, a alma”.
Em passagens como essa, Antônia Claudino, escritora sertaneja e advogada atuante, deveria investir com mais audácia e poeticidade. Apenas assim, diante de temáticas ambivalentes e conteúdos imprevisíveis, suas “pulsações”, embora fundamentadas na lógica inegável do princípio da realidade, poderiam atingir os enigmas do princípio do prazer. Aguardemos o próximo volume!
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Fonte: www.maispb.com.br | Publicado em 2026-01-16 09:33:00
