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sexta-feira 17 julho 2026

Carona com Miller abala cenário político e gera reação em cadeia na Paraíba

Fixei meu olhar, talvez pela última vez, em Trópico de Câncer de Henry Miller, quem sabe encontraria no Centro Histórico de João Pessoa, o cenário do romance de 1934 em Paris, peça central da literatura moderna, algo verborrágico e lascivo. Como ele mesmo afirmou: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”

Imagine a cena nos Trópicos de Tambaú, entre os entusiastas da liberdade sexual, das viagens e da boemia, não há grandes diferenças com os tempos atuais, ainda que a narrativa de Miller seja autobiográfica. Suas histórias, porém, não devem ser interpretadas de forma literal. São uma mistura de ficção e realidade – um tipo de Bukowski mais elaborado, filosófico e surrealista. O Henry Miller deu esse pontapé inicial.

Delírios românticos entre os escombros dos cabarés parisienses dos anos 1930, enquanto a guerra se escondia como uma sombra constante sobre a cabeça de intelectuais, artistas e pintores que se reuniam para beber, discutir e transar. Discutiam sobre o que? Sobre as coisas consumidas com outros até se empanturrarem de sensibilidades imaginárias.

Henry andava sem nada no bolso e nas mãos, vivia de pequenos empregos – o jornalismo era sua prisão. É curioso pensar que poucos jornalistas hoje ganham bem ou conseguem pagar as contas, considerando que todos se consideram repórteres, postando opiniões nas redes sociais. Naquela época, o absurdo não só ocorria, mas assumia protagonismo.

Conhecido como anti-herói, Henry se afirmava como um artista assalariado, forçado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus desejos estúpidos. Delírio, muito delírio. E o mundo dando voltas.

Os capítulos de Trópico de Câncer se sucedem um após o outro sem ordem cronológica, algo parecido com o que vivemos hoje: carregados de fluxo de inconsciência e reflexões fantasiosas nos relatos crus do cotidiano do “toma lá dá cá”.

Sexo é o clima, mas é apenas uma brincadeira de adultos. Quem assistiu ao filme Henry & June de Philip Kaufman (diretor de Contos Secretos do Marquês de Sade), centrado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, dificilmente entenderia o que hoje se chama “trisal”. Outro dia vi no Instagram uma mulher casada com quatro homens – não sei como eles aguentam, ou se estão todos mesmo coito.

A busca por grana e sexo, muita grana, e sexo é bom demais, até não representar mais nada. Grana e sexo.

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